Dori Carvalho: Corações milenares



das tantas vezes 
que nos encontramos 
ainda recordo
estávamos aos beijos 
na arena romana 
enquanto os leões 
trucidavam os cristãos

fazíamos amor 
nos porões fenícios 
enquanto eles guerreavam

tu nunca foste 
bailarina egípcia 
nem eu faraó 
éramos servos

enquanto tu curavas feridas 
eu fazia pobres versos

na santa inquisição 
não éramos da resistência  
nem nazistas, fugíamos das bombas 
para amar em algum paiol

tantos encontros 
tantos lugares 
e sempre um mistério

no império inca 
no império austro-húngaro 
não éramos vítimas 
nem réus sanguinários 
passávamos ao largo 
polindo desejos e ornamentos 
entre beijos e armaduras

nem vimos a guerra de tróia  
tão alucinados estávamos de sonhos

e sempre um mistério

uma vez sim, fomos deuses 
dionísio e diana 
numa noite de carnaval 
no início do século 
no mais 
sempre fomos plebeus 
eu sempre arteiro 
tu sempre curativa

e sempre um mistério

nos cortava 
nos partia 
nos separava 
um corte em nossas carnes 
uma partida inesperada 
uma separação de corpos

sempre um mistério 
e estranhas cicatrizes 
sempre o grande amor 
e eternas guerras internas

no final do século vinte 
eu era só um menino 
tu eras só uma menina 
perdidos e apaixonados.


A dor que mais dói

saudade | via Facebook 

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando. Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha Medeiros